Abra qualquer feed sobre inteligência artificial e conte quantas vezes aparece a palavra "o quê": o que a nova ferramenta faz, o que mudou na última versão, o que você precisa aprender esta semana. Agora conte quantas vezes aparece a palavra "por quê".
O cenário atual fala muito sobre o que será feito e quase nada sobre por que fazer. Para mim, esse é o principal erro de quem tenta acompanhar a IA, porque o porquê é mais importante do que o quê.
Tudo o que você faz é derivado do seu porquê
O "o quê" muda o tempo todo. Ferramentas surgem e desaparecem, funcionalidades viram commodity em semanas, e o que era vanguarda em janeiro está obsoleto em julho.
O porquê também pode mudar, ele não é imutável. Mas, quando existe de verdade, o peso dele sobre todas as decisões é muito maior. Tudo o que é feito é derivado do porquê.
Por isso um porquê errado é tão perigoso. Ele não estraga só uma decisão. Contamina a estrutura inteira de conhecimento que você constrói em cima dele. Você aprende as ferramentas certas pelos motivos errados, acumula técnica sem direção e corre muito sem chegar a lugar nenhum.
Por que entender o porquê faz você aprender mais rápido
Uma das ideias centrais do livro que estou escrevendo, Aprenda mais rápido que a Inteligência Artificial, é esta: quem entende o porquê das coisas aprende mais rápido.
O porquê cria direcionamento. E esse direcionamento tem três qualidades:
Consistência. Você não troca de rumo a cada novidade que aparece.
Coerência. As suas escolhas conversam entre si e formam uma estrutura, não um amontoado.
Energia. Quem sabe por que está fazendo algo encontra motivação onde os outros só encontram cansaço.
Quem corre atrás de todos os "o quês" está sempre um passo atrás da máquina. Quem domina os porquês decide para onde a máquina vai.
Tecnologia sem propósito é vazia
Uso de tecnologia sem propósito é completamente vazio. É um uso sem alma.
O propósito é o que torna cada ser humano único. Somos guiados pelos nossos sentimentos, pela nossa percepção e pela nossa individualidade. É daí que nasce o porquê.
Nenhuma máquina vai ter um propósito. Mais do que isso: nenhuma máquina pode escolher um propósito, e nenhuma máquina pode sentir um propósito.
Não confunda objetivo com propósito
Aqui mora uma confusão comum. A IA pode ter um objetivo: otimizar uma métrica, resolver um problema, cumprir uma tarefa. Pode ter uma funcionalidade e entregar uma resolução.
Mas objetivo não é propósito. O objetivo é dado de fora para dentro, e o propósito é escolhido de dentro para fora.
[COMPLETAR: história do Sosho, o engraxate que escolheu o seu ofício]
A única coisa que uma máquina não pode fazer é escolher. Escolher um caminho, um ofício ou uma causa e dar sentido ao próprio trabalho continua sendo um privilégio humano.
A pergunta que vale mais do que qualquer ferramenta
Na próxima vez que você sentir a ansiedade de "preciso aprender essa nova IA", faça uma pausa e pergunte:
Por que eu quero aprender isso?
Por que isso importa para onde eu quero chegar?
Por que essa ferramenta, e não outra, ou nenhuma?
Se a resposta for clara, você vai aprender mais rápido do que imagina. Se não for, talvez o problema não seja a ferramenta, e sim o porquê.
A energia de quem aprende vibra pelo seu porquê.
Este texto faz parte das reflexões do meu livro "Aprenda mais rápido que a Inteligência Artificial". Leia também o artigo anterior da série: "Vantagem competitiva na era da IA: propósito humano e velocidade de desapego".
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