Uma pergunta que me fazem com frequência, e que eu mesmo comecei a me fazer enquanto escrevo o livro, é: como eu me tornei quem eu sou hoje? Como se constrói uma mente que atravessa tantas mudanças tecnológicas sem ficar para trás?
A resposta mais honesta que encontrei tem uma palavra: hacker.
Uma mente à prova de mudanças (mas não blindada)
Não estou falando de uma mente blindada, que nada atinge. Isso não existe, e se existisse seria rígida demais para sobreviver.
Estou falando de uma mente à prova de mudanças no sentido de ter uma camada resistente de adaptabilidade. É um jeito de pensar que não quebra quando o cenário muda, porque nunca dependeu de o cenário ficar parado.
Esse jeito de pensar tem nome: o jeito hacker.
O ethos hacker
Quando falo em hacker, não falo de invadir sistemas. Falo de uma ética e uma postura diante do mundo: olhar para algo e perguntar como funciona por dentro, como pode ser feito de outro jeito e qual é o atalho que ninguém viu.
Hackear é entender um sistema bem o suficiente para usá-lo de formas que os criadores nem imaginaram.
Olhando para trás, o jeito hacker sempre foi o meu jeito. Foi assim que eu vivi e conheci o mundo, é assim que venho construindo a minha vida e produzindo conhecimento, e é assim que venho namorando as mudanças ao meu redor. Gosto dessa palavra porque é uma relação de curiosidade e encantamento, não de medo.
As características do Fast Learner
O Fast Learner, a pessoa que aprende rápido, tem algumas características que se repetem:
Adaptabilidade rápida. Ele não precisa que o mundo pare para se reorganizar. Ajusta a rota em movimento.
Saber lidar com o excesso. Excesso de informação, de dados e de ferramentas. Em vez de travar, ele filtra, prioriza e trata esse volume com velocidade.
Repertório de qualidade. Não basta acumular informação. O Fast Learner constrói repertório com critério, e é esse repertório que permite conectar ideias de áreas diferentes.
Uma caixa de ferramentas em constante aprimoramento. Métodos, modelos mentais, tecnologias e referências. Ele está sempre afiando e trocando as ferramentas.
Ver muito, conectar rápido, aplicar já
Se eu tivesse que resumir a mentalidade do Fast Learner em uma frase, seria esta:
Ver muitas coisas, conectar os pontos com velocidade e aplicar isso no dia a dia.
Ver muito alimenta o repertório. Conectar rápido transforma repertório em ideia. Aplicar já transforma ideia em resultado, e o resultado gera novo aprendizado.
E a aplicação acontece em três camadas, nesta ordem:
Primeiro, no pessoal. Na sua rotina, nas suas escolhas, na forma como você aprende e vive.
Depois, no profissional. No seu trabalho, nos seus projetos, no seu negócio.
Por fim, na sociedade. No impacto que você gera nas pessoas e na comunidade ao seu redor.
Por que isso importa na era da IA
A inteligência artificial também "aprende rápido". Mas ela aprende dentro dos limites que alguém definiu, com os dados que alguém escolheu.
O hacker faz o contrário: questiona os limites, escolhe os próprios dados e cria as próprias conexões.
Por isso acredito que o ethos hacker é uma das bases para aprender mais rápido que a inteligência artificial. A máquina processa, e o hacker reinterpreta. A máquina segue o sistema, e o hacker entende o sistema e decide quando sair dele.
A pergunta que deixo para você é: qual sistema na sua vida você ainda está apenas seguindo, quando poderia estar hackeando?
Este texto faz parte da série de reflexões do meu livro "Aprenda mais rápido que a Inteligência Artificial". Leia também os artigos anteriores da série: "A IA é um espelho", "Da leitura à imersão" e "Disciplina humana vs. disciplina da máquina".
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